Nos bastidores da diplomacia entre Brasil e Estados Unidos, trava-se um embate muito maior do que simples tarifas ou déficit comercial. É uma disputa por poder, soberania e controle sobre o futuro digital de um dos maiores mercados emergentes do mundo.
Em julho, o então presidente Donald Trump justificou a imposição de uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros alegando que o Brasil atacava sistematicamente os interesses de empresas norte-americanas. A mensagem foi clara: o confronto não é apenas econômico, mas político — e tem a tecnologia no centro do tabuleiro.
O estopim? A decisão histórica do Supremo Tribunal Federal brasileiro que ampliou a responsabilidade das redes sociais por conteúdos ofensivos publicados por terceiros. Um duro golpe nas Big Techs, que se viam protegidas por uma legislação que exigia ordem judicial específica para responsabilização — uma proteção agora derrubada.
“Não se trata apenas de taxar. A verdadeira disputa é sobre regulação e soberania digital”, alerta Leandro Tessler, professor da Unicamp e gestor no Centro de Pesquisa em Inteligência Artificial – BIOS. Ele afirma: “O Brasil não abre mão de controlar seu próprio ecossistema digital. E isso tem implicações gigantescas, inclusive para as finanças das gigantes americanas”.
Uma Relação Cada Vez Mais Tensa
Enquanto as Big Techs marcavam presença de destaque na posse de Trump — com doações e sorrisos de bastidores —, o Brasil endurecia o tom. O presidente Lula já declarou que as empresas norte-americanas precisam pagar impostos por atuarem em solo brasileiro, e o chamado “PL Elon Musk” reacendeu o debate: empresas com receita anual acima de R$ 500 milhões poderão ser taxadas em 7%.
Não é algo sem precedentes. Como lembra Tessler, a Amazon, por exemplo, já enfrenta altas tributações em vendas. “Sempre foi assim no Brasil. Somos uma economia tradicionalmente fechada”, reforça.
Mas o que está realmente em jogo vai além da tributação: é o controle dos dados de milhões de brasileiros. “O ativo mais valioso aqui é a população. O Brasil é um mercado enorme para anunciantes, com usuários altamente conectados. Isso é ouro para as Big Techs”, explica Tessler. Por isso, o debate é mais político do que técnico — e está longe de uma solução simples.
Brasil na Mira da Inovação Global
Apesar das tensões, o Brasil não assiste passivamente. Está se posicionando como um novo polo estratégico para datacenters — infraestruturas essenciais para nuvem, inteligência artificial e automação.
Projetos como o Rio AI City, no Rio de Janeiro, o Scala AI City, no Rio Grande do Sul, e investimentos em Maringá e Uberlândia pela americana RT-One, mostram o potencial do país nesse cenário. Mais recentemente, o TikTok anunciou um aporte de R$ 50 bilhões para construir um gigantesco datacenter no Ceará — uma aposta clara no futuro digital do Brasil.
“O governo está criando condições para o Brasil liderar essa transformação. Mas investidores querem saber: como o país vai se posicionar?”, questiona Marcelo Coutinho, professor da FGV. Segundo ele, a decisão de investir em outro lugar não é simples — envolve custos de imagem, matriz energética, regulação e mais.
Um Futuro em Jogo
O jogo ainda está em aberto. Algumas Big Techs tentam negociar isenções fiscais em troca de investimentos, mas Tessler alerta: “Isso pode ter sérios impactos ambientais e sociais. E o governo pode sim reagir com medidas duras, como taxas sobre serviços em nuvem, IA e publicidade dirigida”.
Empresas de marketing e publicidade, que dependem das plataformas globais para campanhas segmentadas, podem ver seus custos explodirem. “Os anúncios podem se tornar inviáveis, afetando diretamente as Big Techs mais expostas às redes sociais”, explica Tessler.
Na tentativa de aliviar as tensões, o vice-presidente Geraldo Alckmin se reuniu recentemente com representantes da Meta, Google, Amazon, Apple, Visa e Expedia. O objetivo? Ouvir, entender e — talvez — renegociar. O gesto revela uma disposição estratégica de manter o diálogo aberto, mas sem abrir mão dos interesses nacionais.
O Que Está em Jogo para o Brasil — e para Você
O Brasil está num ponto de inflexão. Pode continuar sendo um terreno fértil para a exploração desenfreada das gigantes estrangeiras ou assumir o protagonismo no novo mundo digital, exigindo respeito, responsabilidade e reciprocidade.
Essa batalha não se decide apenas nos gabinetes de Brasília ou nas salas da Casa Branca. Ela passa pela nossa compreensão como cidadãos, consumidores e criadores de conteúdo. Cada dado seu, cada clique, cada informação — tem valor. E quem controla esse valor, controla o futuro.
A pergunta é: de que lado você quer estar nessa disputa?